No dia 19 de abril, celebramos o Dia dos Povos Indígenas — uma oportunidade fundamental para refletirmos sobre os conhecimentos ancestrais dos povos originários e resgatarmos perspectivas esquecidas de viver em harmonia com a natureza.
Entre esses conhecimentos, destaca-se o conceito de Bem Viver, ou Buen Vivir (na língua espanhola) e Sumak Kawsay (na língua quechua), que tem suas raízes nas culturas indígenas da América Latina, especialmente entre os povos andinos e amazônicos. Mais do que um ideal, o Bem Viver é uma filosofia de vida de base coletiva e de convivência respeitosa entre seres humanos e natureza.
Na cosmovisão indígena, a terra não é um bem de posse individual, mas um bem coletivo. A produção de alimentos, por exemplo, não é guiada pela lógica da acumulação, mas sim pelas necessidades da comunidade. Cada ser respeita o outro, e a natureza é vista como mãe e provedora, e não como recurso a ser explorado indiscriminadamente.
Essa visão contrasta profundamente com a lógica do capitalismo ocidental, que valoriza o crescimento econômico a qualquer custo. Em nome do desenvolvimento, vemos a destruição de florestas, o envenenamento das águas, o extermínio de espécies e a violência sistemática contra os povos originários. O que parece progresso nos gráficos econômicos, revela-se, na verdade, como retrocesso para a vida em todas as suas formas.
Em sua carta Para quem quer cantar e dançar para o céu (2020), o líder indígena Ailton Krenak apontou que a lógica criada pelo Ocidente, de demarcação de territórios, causou danos irreversíveis às formas de estar no mundo, danos estes que se repetem por falta de encontro e de disposição para os ajustes necessários neste mundo orientado por disputas.
[…] o verbo disputar virou verbo vida, passou a nomear o princípio das coisas do mundo […] Se continuarmos entendendo o mundo assim, viveremos sempre produzindo incidentes, terríveis incidentes, engajados em nome e em defesa do progresso, da evolução e só teremos a banalização e o desprezo pela vida como horizonte de expectativa.” (KRENAK, 2020, p.21).
“Como acordar dessa cegueira letárgica que, inescrupulosamente, fala em desenvolvimentismo a todo custo?” Questiona Cristina Araripe (2020).
Será que podemos resgatar a proposta de confluência de saberes do pensador quilombola Nêgo Bispo e criarmos pontes entre as culturas originárias e ocidentais, gerando possibilidades que nos fortaleça como humanidade? Será que neste contexto “em que a vida parece perturbada” (Cristina Araripe, 2020), seremos capazes de revisar padrões hegemônicos e adotar uma forma de vida equilibrada, de respeito à natureza, de reciprocidade e valorização das relações comunitárias? Será que podemos, enfim, rever nossos padrões de consumo, nossas crenças sobre progresso e nossos modos de estar no mundo?
O Brasil possui diretrizes e normativas voltadas à sustentabilidade e ao respeito à diversidade. Ainda há tempo de unir esforços para seguirmos um novo caminho — e talvez este seja exatamente o tempo de (des)envolver.
Referências e indicações para saber mais:
Programa Bem Viver + MDHC
Livro: Acosta – O Bem Viver: Uma oportunidade para imaginar outros mundos
Vídeo: Filosofia Indígena e Bem Viver
Vídeo: O que é o conceito de Bem Viver? – Instituto Casa Comum
Livro: Cartas para o Bem Viver, orgs. Xucuru-Kariri, Rafael; Costa, Suzane Lima